Sou fruto da solidariedade

SOU FRUTO DA SOLIDARIEDADE

Gosto sempre de contar que eu era um menino pobre da periferia de São Paulo. Quem conhece a cidade de São Paulo, hoje, pode estranhar, mas o bairro do Limão, bem como toda a região além do rio Tietê, sessenta anos atrás era periferia.

Papai era pedreiro. Pegava uma obra para construir e ia até o fim. Muitas vezes, o proprietário da obra não pagava em dia, nem sempre pagava o valor acertado e como era meu pai quem pagava os pedreiros e os serventes que trabalhavam com ele, várias vezes, ele mesmo ficava sem salário para que pudesse pagá-los. Por isso, mesmo sendo um bom pedreiro, muito honesto e trabalhador, vivia sempre apertado economicamente.

Nossa vida foi muito dura. Mamãe foi tuberculosa durante sete anos – naquele tempo a cura desta doença era muito demorada – mas assim mesmo ela trabalhava como costureira dia e noite usando a máquina de costura para ajudar no orçamento familiar. Muitas vezes, era ela que garantia a comida na mesa, com o dinheiro que recebia das costuras, porque papai, semana após semana, ficava sem salário.

No meio de toda pobreza, graças a Deus, muito cedo tive a presença de corações solidários que me abriram caminhos e me deram possibilidades. Se não fossem eles, eu não seria o que eu sou. As irmãs da Providência de Gap, do colégio Padre Moye, no bairro do Limão, deram a mão à minha família pobre e me receberam na escola. Perceberam em mim sinais de vocação e me ajudaram. Cuidaram de mim e da minha vocação, sem que eu percebesse nada.

Terminando o quarto ano primário, foram elas que me encaminharam para os padres salesianos do Liceu Coração de Jesus. Como eu era menino pobre, que não podia pagar os estudos, eles me receberam nas Escolas Profissionais Salesianas. Lá, eu fiz artes gráficas. Era Deus investindo em mim e na minha vocação, através desses corações solidários.

Das Escolas Profissionais para o Seminário a passagem foi fácil. Mas aí, mais uma vez, fui socorrido pela solidariedade, pois no Seminário eu nunca pude pagar nada, nem mesmo o material escolar e os objetos pessoais. Sou realmente fruto da solidariedade. Se não fossem corações solidários para me socorrer, eu não seria o que sou.

Não dá para esquecer um fato marcante. Quando meu pai teve a coragem de comprar um terreno pequeno e construir para nós uma casa de dois quartos, sala, cozinha e banheiro fora, no quintal, fomos morar na Vila Nova Cachoeirinha, que estava começando. Era mais periferia ainda. Lá, eu tive a graça de encontrar um amigo. Ele gostou de mim e começou a me proteger naquele bairro de marginalização. Era com a proteção dele que eu conseguia ir para o colégio e voltar para casa todos os dias. Ele me ensinou muitas coisas e tinha um coração muito bom. Ele foi o meu amigo. Mas, enquanto eu caminhava para as Escolas Profissionais e para o Seminário, ele caminhou para a marginalização. Por quê?

Porque eu tive corações solidários que me deram a mão e me abriram caminho e ele não. Eu era padre novo, ainda não tinha chegado aos quarenta anos e o meu amigo já tinha morrido… Realmente sou fruto da solidariedade. Tenho a obrigação de ser solidário e de lutar para que muitos outros tenham um coração solidário.

Quando digo que um coração solidário constrói um mundo novo, estou falando de algo que experimentei em minha vida. Tenho certeza de que você também é fruto da solidariedade. Precisamos nos dar as mãos e construir, com a nossa solidariedade, homens e mulheres novos para um mundo novo.

Conto com você no Projeto Coração Solidário. Há muita gente precisando de nós.

Com a benção de Deus, padre Jonas.

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