O barro sou eu
O Evangelho apresenta os fariseus, doutores da Lei e escribas como aqueles que deveriam formar o povo, mas que acabaram presos a práticas exteriores. Levavam a Lei a um rigor exagerado, como no caso do sábado, proibindo até gestos simples, enquanto o interior permanecia cheio de hipocrisia, ambição e impureza.
Jesus denuncia essa incoerência e deixa claro que Ele não quer uma mudança apenas aparente. Não quer “caiação”, não quer um exterior bonito, mas uma transformação verdadeira que venha de dentro.
Por isso, o Senhor nos convida a uma escuta profunda: com os ouvidos, com a mente e com o coração. Ele quer mudar a nossa vida, não maquiar nossas falhas.
A primeira leitura, da Carta aos Colossenses, reforça essa verdade ao lembrar que outrora estávamos afastados de Deus, vivendo obras más, mas que agora fomos reconciliados por meio da morte de Cristo para nos tornarmos santos, irrepreensíveis e inatacáveis.
Santidade não é peso mas um dom
Deus não exige santidade como um peso, mas a oferece como dom, porque deseja nos transformar.
A imagem do oleiro ajuda a compreender essa ação de Deus. O oleiro pega o barro simples e, com habilidade e paciência, o transforma em uma obra preciosa.
Assim também Deus faz conosco. Somos barro em suas mãos. Muitas vezes, porém, permitimos que o inimigo estrague essa obra, trocando nossa dignidade de filhos de Deus por coisas pequenas e passageiras.
Deus não nos descarta
Quando o barro se deforma, o oleiro não o descarta: recolhe tudo e recomeça. Quando o barro endurece, ele precisa ser quebrado, reduzido a pó, para poder ser moldado novamente. Esse processo dói, causa frustração, mas é sinal de amor e não de rejeição. Deus não nos descarta; Ele nos refaz.
As grandes dores da vida — doenças, desemprego, crises familiares, fracassos e perdas — podem ser compreendidas como esse momento em que o barro duro precisa ser quebrado. Por trás do “malho” que atinge o barro está a mão amorosa do Pai, que permite a dor não para destruir, mas para transformar.
Tudo concorre para o bem daqueles que amam a Deus. Por isso, é preciso confiar e deixar Deus amassar o barro. Ele sabe o que faz. Ele quebra o que está endurecido, coloca água nova e recomeça, transformando nossa fragilidade em um vaso forte, belo e cheio de sentido.
Monsenhor Jonas Abib
Fundador da Comunidade Canção Nova