Não servir a dois senhores

“O pão que eu darei é a minha carne dada para a vida do mundo. Ninguém pode servir a dois senhores: ou odiará a um e amará o outro, ou se apegará a um e desprezará o outro”. Amar e odiar são sentimentos contrários. Para amar um senhor, investir totalmente nele e servi-lo de todo o coração é preciso rejeitar o outro.

Jesus conclui: “Não podeis servir a Deus e ao Dinheiro”. Note que a palavra dinheiro está com letra maiúscula, porque, naquele tempo existia entre os pagãos um deus do dinheiro.

Há um sistema que nos leva a servir ao dinheiro, ao poder e ao instinto que existe em nós (devido ao pecado original) de viver a concupiscência dos olhos, a ganância da vida. Existe em nós um desejo de possuir, de mandar, de ter cargos, posições, autoridade, poder. É uma inclinação muito forte que provém do pecado original: o possuir, o poder, o prazer e o parecer, que podemos nominar como os quatro “pês”.

O primeiro é o “possuir”: ter as coisas. Esse possuir nos leva a uma sede insaciável de poder. Desde os grandes até os pequenos poderes da sociedade: comandar nosso “cantinho”, nosso departamento, nosso serviço, nossa mesa, acreditando que aquilo é nossa posse, nosso território, nosso reino. Essa sede de poder não é apenas daqueles que têm os grandes poderes do mundo.

Podemos viver a concupiscência do “poder”, que é o segundo ”p”, buscando grandes cargos e posições no mundo social e político, nas grandes empresas, mas também no meio onde vivemos, na Igreja, na comunidade. Existem expressões que demonstram isso: “Ninguém põe a mão aqui!”; “Quem foi que tirou isto daqui?”; “Não ensino meu serviço para ninguém”… É o sistema do mundo. Ele nos leva ao desejo de possuir as pequenas e grandes coisas. E por que vivemos apegados a bobagens? Por causa da concupiscência do possuir e do poder que existe em todos nós.

Se não podemos mandar em grandes coisas, mandamos em nosso cantinho, e ninguém pode entrar em nosso território. Esse é o princípio do mundo. O príncipe deste mundo é assim, e ele acabou nos contaminando.

Esses dois pecados nos levam ao terceiro, que é o “prazer”. O tentador nos derruba no prazer da sexualidade. Nesse campo ele tem liberdade e age muito bem; sabe como tramar. E por que ele age assim? Para optarmos pelo seu sistema.

Mas aquele que é o Senhor nos diz: não podemos estar em dois sistemas. É impossível conjugá-los.

Existe um quarto pecado, o mais tolo, que usamos como válvula de escape: é o “parecer”. Muitas vezes, não conseguimos possuir tudo aquilo que gostaríamos, nem temos o poder e o prazer que nossa concupiscência queria. Então usamos a “muleta” do parecer.

Temos mil estratégias para parecer diante de todos: usamos uma máscara a fim de parecer diante de todo o mundo que possuímos coisas, que temos poder e autoridade, entre outros. É como um rico que já deixou de ser rico há muito tempo, mas ainda ostenta aquela posição; não tem mais nada, só dívidas…

É necessário fazer o que Jesus nos diz: não dá para servir a dois senhores, a dois sistemas. Temos de odiar um deles, e odiar que dizer: não querer saber, de jeito nenhum, do sistema do mundo! Odiar o sistema do mundo para poder, realmente, amar o sistema de Deus e se entregar a ele de coração. Quem procura agradar aos dois acaba sendo vítima.

Até os consagrados, os que vivem na Igreja, os que estão numa comunidade, padres, religiosos, se quiserem agradar ao sistema do mundo não estarão servindo ao Senhor verdadeiro, Jesus Cristo, e sim ao príncipe deste mundo.

(Trecho extraído do livro “Considerai como crescem os lírios” de monsenhor Jonas Abib).

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